a experiência do experimentar

 

Refletir e escrever sobre as dificuldades e angústias da condição humana é uma tarefa complicada: é muito fácil ser excessivo, paternalista ou maternalista, condescendente. É muito fácil cair em frases bonitas sobre o sentido da vida que, na grande maioria dos casos e na vida prática, quando precisamos mesmo, não as conseguimos lembrar. No entanto, apesar de complicado é extremamente importante parar para pensar, olhar com outros olhos para nós próprios, para aquilo que fazemos, para os outros, para o que nos rodeia.

No início do ano passado, a Marta Faria foi desafiada a refletir mensalmente sobre o que nós, seres humanos, fazemos e como fazemos no nosso dia a dia. Quem se disponibilizou a acompanhar as publicações mensais foi presenteado com excelentes textos, acompanhados de imagens de pequenos momentos e detalhes do Abrigo. Os textos da Marta são convites irrecusáveis à reflexão, como uma conversa de café com um amigo que sente e pensa sobre as mesmas coisas que nós. Como diz a Marta, "a experiência do experimentar é o que dá vida ao hábito de mudar". E tantas vezes se fala na necessidade de mudança, a mudança em nós próprios, a mudança no mundo mas, efetivamente, para mudar há que experimentar. E o que fazemos? O que experimentamos? O que mudamos? No fim do ano, sem qualquer hesitação, tornou-se evidente que estas reflexões mereciam estar impressas em livro como se fosse possível, de alguma forma, materializar nas nossas vidas as palavras sábias da Marta.

"A experiência do experimentar é o que dá vida ao hábito de mudar" encontra-se disponível para venda. A totalidade das receitas comerciais reverte a favor de O Abrigo - Centro de Solidariedade Social de São João de Ver. Caso pretenda adquirir um exemplar pode dirigir-se pessoalmente ao Abrigo ou escrever para Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

humanitude no apoio ao domicílio

Há 17 anos que diariamente cuidamos de pessoas nas suas casas. Começámos com uma equipa e fomos crescendo. Hoje, sentimos orgulho na nossa história, no crescimento do serviço de apoio domiciliário e no reconhecimento por parte das famílias de quem cuidamos. No entanto, há algum tempo que sentimos inquietude. Uma inquietude familiar... porque já a tínhamos sentido no Porto de Abrigo: apesar da satisfação das pessoas de quem cuidamos, sabemos que não cuidamos como gostaríamos de ser cuidados.

Cuidamos a correr, olhamos pouco, tocamos rápido, estamos sempre de passagem. Sabemos que a relação de ajuda para com quem precisa, muitas das vezes, deixa de acontecer justificada com base na falta de tempo, escassez de recursos e muito trabalho. É por demais evidente que não é possível continuar a organizar o serviço de apoio domiciliário da mesma forma. O mundo mudou, a comunidade mudou, a dinâmica da família mudou e as necessidades das pessoas que nos procuram mudaram. E nós continuamos a fazer o que sempre fizemos da forma que sempre fizemos. Graças à experiência de implementação da Humanitude no Porto de Abrigo, no serviço de apoio domiciliário foi muito claro que, para obter resultados diferentes, cuidar em humanitude seria um factor determinante.

 

Hoje, no serviço de apoio domiciliário estamos a aprender a fazer diferente e a pensar diferente para conseguir obter resultados diferentes. Estamos a (re)aprender a tocar, a falar, a olhar e a manter as pessoas de pé. Continua a ser simples de dizer e díficil de fazer. Para prestar cuidados em Humanitude é preciso corrigir erros e ajustar práticas. E é preciso, com muita humildade reconhecer que, para ser cuidador, não basta ter um grande coração, paciência e resistência ao cansaço. Para ser cuidador é necessário saber fazer, aplicar técnicas e métodos de trabalho e, principalmente, ter a capacidade de reconhecer na pessoa de quem cuidamos uma pessoa como nós. Não é de vez em quando. É sempre.

Memórias

Sem dar por nada o ambiente volta a transformar-se. Os dias mais curtos escurecem num tempo frio, a precisar de encarnar o espírito nas cores, nos cheiros e nos sabores. É, outra vez, quase Natal.

Provavelmente o ritmo anda acelerado, entre preparativos e preparações. Afinal, há uma festa e uma ceia que não podem faltar. Mesmo assim, acaso se atreva a parar, esta mensagem é para si. Se puder, não deixe de a partilhar.

Este Natal ofereça memórias.

Abrande, inspire e recomece, de coração aberto e sentidos despertos. O Natal não pede prendas, o seu verdadeiro valor está no presente. Um significado para o aqui e agora: sem truques ou malabarismos. Apenas gestos simples, construindo memórias para mais tarde recordar…

A cozinha do forno a lenha a cheirar a doce canela. A sala iluminada à lareira com o crepitar da lenha a ecoar pela chaminé. Quadradinhos de chocolate em contagem decrescente até à noite mais especial. Abraços que soltam corações apertados durante meses longe da vista.

Sofás e poltronas que embalam longas sestas aconchegadas em mantas de xadrez. Histórias de encantar contadas por crianças como gente grande. Canções que afinam vozes de todas as idades em sintonia com as luzes a piscar.

Fotografias onde a família continua a crescer. E vídeos que marcam a passagem do tempo pela vida. Velhos e novos aos baralhos. Cartas e postais que se enchem de mensagens. O queijo que nem sempre pode haver e o vinho que nestes dias não pode faltar. Conversas e gargalhadas a compor o ritmo enquanto o relógio parece parar.

Tempo para estar e ficar.
Feliz Natal.

Marta Faria

fazer de conta é brincar a sério

  • O Abrigo
  • creche

 

Como fazer com que uma criança aprenda e adote um determinado hábito? Um daqueles hábitos que fazem parte de uma rotina tão sistematizada que ninguém se lembra de como o adquiriu… A criança precisa de lavar os dentes, e agora? Vai havendo tentativas: mas ela não abre a boca, trinca a escova, engole a pasta, engasga-se. Os relatos são variados.

Na creche procuramos sempre ajudar e então, desafiamos a criança de forma a motivá-la para o assunto. Uma vez tornado num interesse tudo foi mais fácil. A criança quis saber, quis aprender, quis experimentar… tornou-se a protagonista no desenvolvimento do seu próprio conhecimento. Ao que parece, deixá-la agir por si própria aumenta a sua autoestima e a sua autoconfiança. É fundamental encarar a criança como competente. Como? Dando-lhe autonomia. Fazendo com que se sinta crescida. Fazendo-a aprender a aprender.

Na nossa creche, desafiar a criança é possível com novidades e objetos outrora do mundo do “não se mexe”: Pasta? Vamos abrir para ver? Várias cores, cheiros… Posso mexer? Desafiar a criança é possível se lhe dermos espaço para ela voar! Parece difícil? Para o adulto, talvez. Para uma criança isso é muito fácil: basta usar a imaginação. E com a imaginação ela voa.

Fazer de conta é brincar a sério… e brincar – já diria alguém – é o que de mais sério as crianças fazem (Manuel Sarmento). Elas aprendem a relacionar-se com os outros, a partilhar, a exteriorizar ideias e sentimentos, a adquirir conhecimentos. Na creche, as crianças brincam com muito gosto! Fazem de conta muitas coisas! Fizeram de conta que os bebés (faz-de-conta) já nascem com dentes e por isso têm de os ajudar a tratar deles: copo, escova, pasta, água, em cima, em baixo, de um lado, do outro, à frente, atrás…

E a brincar a sério… já todas aprenderam a lavar os seus próprios dentes. Por vezes ainda se engasgam, e comem pasta é verdade … mas a cada dia que passa (por tentativa erro) tudo melhora. Já sabem tomar um pouco mais conta de si, precisam de lavar mais vezes os dentes aos bebés do faz-de-conta claro está, mas aos poucos vão conhecendo melhor o seu mundo. E assim, a brincar e a fazer de conta a criança cresce e aprende… a sério!

a música e o seu incrível poder

 

No Porto de Abrigo, a música faz parte de nós: em vários momentos do dia é frequente ouvir António Zambujo, Carminho, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Tony de Matos, entre outros; uma manhã por semana recebemos um dos nossos voluntários e o seu acórdeão e quando fazemos festas com as famílias... há sempre momentos musicais. A música é importante para nós mas, só recentemente nos deparamos com o seu poder e potencial. Passamos a explicar:

O Porto de Abrigo está a participar no projeto "A Casa vai a Casa", um serviço de música ao domicílio da Casa da Música, concebido para grupos que não podem deslocar-se à Casa da Música sob o lema "Convidem-nos que nós vamos". O que está a acontecer em cada sessão é extraordinário! Vemos pessoas a tocar violino imaginário e a levantar os braços como nunca o fazem, a tocar piano imaginário, a marcar o ritmo, a vibrar, a cantar, a trautear... com o entusiasmo e dedicação que se tem quando as limitações da saúde e da idade não fazem parte das preocupações. 

Nada do que observamos nas sessões dinamizadas pelos formadores da Casa da Música é mágico. No entanto, estes senhores fazem magia. Uma magia que se consegue encontrar explicada cientificamente na literatura relacionada com a música e com a neurociência: 

1 - A música gera interações auditivo-motoras no cérebro de quem executa e no de quem ouve: pessoas com doenças neurológicas beneficiam dessas interações auditivo-motoras, como é o caso de pacientes com doença de Parkinson, que, apesar da dificuldade de locomoção, conseguem, por meio da música, adquirir um andar mais fluente. Além disso, esses pacientes conseguem dançar ao ouvir música, o que indica o envolvimento de áreas cerebrais relacionadas ao movimento com a simples audição de música (THAUT et al., 2001). Esse efeito estaria relacionado com a ativação de circuitos automáticos de movimento, normalmente perdidos durante o processo degenerativo da doença. O que se argumenta é que os circuitos que normalmente envolvem as áreas relacionadas com a locomoção vão perdendo sua função. A música, no caso, atuaria como um agente diferente ao normalmente utilizado nas tarefas motoras.

2 - Apesar da música e da linguagem utilizarem os mesmos parâmetros do som para a sua organização sonora... a música e a linguagem são processadas de forma independente no cérebro. Esta afirmação é evidente no caso das pessoas com afasia, que mantêm a capacidade de cantar e de reconhecer música, embora tenham dificuldades na fala (ZATORRE; CHEN; PENHUME, 2007).

3 - A música é inseparável da emoção. Através da música é possível criar uma conexão com as pessoas. Quando se vive em luta com os próprios pensamentos, com os medos, angústias, confusão e ansiedade... a música provoca emoções prazerosas, consegue-se entender o que é, não se pensa noutra coisa, não se sente dificuldade. Um estudo conduzido por DRAPEAU et al. (2009) avaliou o reconhecimento de emoções em faces, voz e música por pacientes com Alzheimer. Os resultados mostraram que os pacientes perdiam somente a capacidade de reconhecer emoções em faces, mantendo a capacidade de reconhecimento de emoções em vozes e música.

4 - Não se sabe por que razão a música facilita a aquisição de memória. A existência de pacientes com demência que se esquecem de fatos da própria vida, mas são capazes de cantar canções da infância de cor indica que, se não é especial, a memória para música é, ao menos, diferente da memória para fatos e imagens do quotidiano.

E agora? Agora, somos fãs!!! A Casa vai a Casa é um projeto extraordinário, que nos trouxe uma nova forma de ouvir música: não é só entretenimento ou banda sonora, é instrumento que dá vida! 

Praticar a tolerância

Novembro o mês, 16 o dia. Escolhidos para lhe dedicar atenção, com mais pompa, que as circunstâncias de hoje não deixam muita margem para duvida sobre o quanto ela nos faz falta. A tolerância. E um mundo inteiro a precisar de a praticar.

Esqueça tudo o que sabe, sem receios. Deixe ficar guardado o conhecimento acumulado e parta numa viagem pelo pensamento, com a certeza de quem confia que o saber das experiências feito se entranha debaixo da pele e, como tal, não se perde assim de repente. Tudo o que sabe há-de cá estar, quando voltar. Mas, por agora, embarque nesta aventura, mesmo que se estranhe ao começar. Recorde ou imagine um lugar pouco familiar, na companhia de uns quantos desconhecidos, por tempo indeterminado…suficiente para parecer uma situação de por os nervos em franja, não é verdade?

Parece que já se ouve: “isso não é nada normal!”, em tom de sobrolho levantado… Pois bem, já que falamos de tolerância, leia até ao final. Pensando em cenários mais próximos, vamos partir do bom princípio de questionar sempre e nunca tomar nada como verdade absoluta. Por exemplo, procure responder: o que é isso a que chamamos «normal»?

A regra, o usual. Por outras palavras, o que acontece mais vezes e que por força da repetição nos fazem crer que se torna exemplar. O risco que corremos? Julgar que normal seja sinónimo de acertado, erradamente. A consequência? Fazer cara feia à diferença quando nos esboça um sorriso, sem lhe dar a oportunidade de se apresentar e mostrar que, quase sempre, muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa.

Da próxima vez que vir um mapa repare na quantidade de diferentes caminhos que podem levar de um ponto A a um ponto B. Não hesite em descobri-los, um a um, pelo próprio pé ou na voz de quem por lá passou. Pratique a tolerância, a pensar um mundo melhor. E acrescente valor ao seu saber com tudo o que os outros têm para dar.

Marta Faria

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